Buscar
  • Responder Fazendo

Versão cinematográfica da peça Antígona Terceirizada cria diálogo entre a tragédia de Sófocles

Com dramaturgia de Victor Nóvoa, espetáculo é protagonizado por Denise Assunção, dirigido por Aysha Nascimento, Georgette Fadel e Karen Menatti e tem trilha sonora original de André Abujamra.

Filme Antígona Terceirizada - Foto: Julia Rufino - responderfazendo.com


Livremente inspirada na tragédia grega de Sófocles, Antígona Terceirizada, com dramaturgia de Victor Nóvoa, segue em cartaz em uma versão cinematográfica, transmitida pelo Centro Cultural São Paulo no YouTube, até o dia 4 de dezembro, sempre às 19h. O trabalho tem direção compartilhada por Aysha Nascimento, Georgette Fadel e Karen Menatti e trilha sonora original de André Abujamra. O elenco é composto por Denise Assunção, Éder dos Anjos, Nilcéia Vicente, Alba Brito e Luís Mármora, que idealizou a montagem ao lado de Nóvoa.

A obra dialoga com a tragédia original de Sófocles para propor uma reflexão ácida sobre os tempos sombrios atravessados pelo Brasil diante da pandemia de Covid-19; a ausência do direito ao luto e a falta de dignidade nos processos de morte enfrentados pela população pobre; os processos de exclusão racial, social e de gênero; o avanço da necropolítica, que não está submetida a nenhuma ética; e a polarização política da sociedade.

Na tragédia original de Sófocles, Antígona confronta o rei Creonte ao tentar enterrar apropriadamente o irmão Polinice, morto na disputa contra seu outro irmão, Etéocles, pelo trono de Tebas. O monarca – e tio de todos – sepultou Etéocles e proibiu que enterrassem o outro. Para os gregos, os rituais fúnebres tinham extrema importância para que as almas dos mortos fossem encaminhadas devidamente ao mundo dos mortos.

Filme Antígona Terceirizada - Foto: Julia Rufino - responderfazendo.com


Já na dramaturgia de Victor Nóvoa, Antígona é uma mulher negra que não tem direito à aposentadoria e é obrigada a trabalhar em uma empresa que terceiriza serviços gerais. Diante da pandemia que já matou milhares de pessoas em seu país, ela se opõe às leis do Estado – representadas pela figura de Creonte – para tentar enterrar sua filha, que morreu infectada pelo vírus causador de uma das maiores tragédias humanas de todos os tempos. A dramaturgia de Nóvoa foi profundamente debatida coletivamente, o que fez com que o texto inicial se alterasse durante o processo de criação e dialogasse com a urgência de todas/os artistas presentes nesse trabalho.

E não há pessoa melhor para dar corpo a essa protagonista do que a veterana atriz Denise Assunção. “A experiência dela faz com que tenhamos uma força trágica no trabalho para que possamos extrapolar o drama e a questão individual. Ela traz a dimensão mais profunda da dor, do embate. Sem essa potência e experiência, não conseguiríamos atingir isso que é tão necessário para essa dramaturgia”, comenta Georgette Fadel.

Ao contrário da tragédia de Sófocles, que tem apenas um coro, o Antígona Terceirizada tem esse elemento dividido em dois. “Temos um coro de seguidores de Creonte no Twitter, que repete tudo o que ele diz e outro que apoia Antígona. A proposta é justamente mostrar como está dividida a nossa sociedade e as opiniões opostas, que são repetidas à exaustão. Queremos retratar a enorme tragédia pela qual o mundo passa e toda a solidão e cegueira de se caminhar em direção ao abismo com a cabeça erguida”, revela a encenadora.

Direção compartilhada

A encenação de Antígona Terceirizada assume a linguagem em vídeo que o grupo escolheu chamar de teatro filmado ou versão cinematográfica da peça. Embora tenha elementos do cinema, como a composição das cenas e a adoção dos diferentes pontos de vista de várias câmeras, o trabalho preserva elementos fortes do teatro – os atores, por exemplo, jogam e contracenam com essas câmeras.

“É difícil encaixar o trabalho em nomenclaturas. O que buscamos foi uma atuação não-realista, exceto em alguns momentos. A peça traz um desenho trágico e as personagens representam essas forças que atuam na sociedade – as classes sociais, a cor de pele. O gestual, o desenho e essa câmera vão buscar o traço não realista e sintético, no qual o desenvolvimento não é psicológico”, explica a codiretora.

Fadel ainda conta que, durante o processo criativo, o grupo mergulhou profundamente no estudo da tragédia grega, nos textos de estudiosos sobre essa obra e na discussão do texto de Victor Nóvoa. “Tem outra obra que nos debruçamos para pensar o diálogo com o cinema que foi o filme Medeia (1988), de Lars von Trier. A obra trouxe algumas questões importantes, como os tempos e os planos. Isso abriu muito a nossa perspectiva dentro da obra”, acrescenta a codiretora Aysha Nascimento.

Já a experiência da direção compartilhada foi bastante rica. “Esse lugar de dividir o pensamento é muito importante para o teatro coletivo. E ter três mulheres muito diferentes, mas ao mesmo tempo muito próximas em seu fazer teatral, na linha de frente foi muito importante. A direção infelizmente ainda é um lugar muito hierarquizado dentro dos grupos e poder dividir isso com pessoas que pensam diferente de você é muito rico. O projeto foi muito importante para que pudéssemos crescer e entender as novas formas de fazer artes cênicas. É um projeto muito visceral”, completa Nascimento.

“Houve uma escuta muito atenta, fina e generosa de todas as pessoas que fizeram parte da composição. Nós da direção, todo o elenco e o próprio Victor Nóvoa debatíamos muitas vezes cada ponto e íamos construindo pequenas mudanças e trajetórias na dramaturgia. E, sobre trabalhar com essas duas artistas que eu tanto admiro e acompanho em suas trajetórias individuais, foi um deleite. Conseguimos que todas tivessem suas vozes representadas ali. E eu acho que politicamente isso é muito importante”, reforça Karen Menatti.

Ficha Técnica:

Concepção e Idealização: Victor Nóvoa e Luís Mármora. Direção: Aysha Nascimento, Georgette Fadel e Karen Menatti. Dramaturgia: Victor Nóvoa (com interferência poética do coletivo). Elenco: Denise Assunção, Luís Mármora, Nilcéia Vicente, Éder dos Anjos e Alba Brito. Participações especiais (vídeos e áudios): Catarina Milani e Karen Menatti. Direção de Produção: Catarina Milani. Direção de Arte: Eliseu Weide. Designer de Luz: Aline Santini e Clara Caramez. Trilha Sonora Original: André Abujamra. Direção Audiovisual e Montagem: Julia Rufino. Desenho de Som e Mixagem: Ivan Garro. Video Mapping: Rafael Drodro. Operação de Luz: Clara Caramez Captação de Som Direto: Gabriel Piotto. Assistência de Produção: Paula Praia. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli. Contrarregragem: Bruno Maldegan. Imagens de Drone: Anali Dupré. Técnico de Transmissão: Leandro Simões Wanderley. Design e Comunicação: Cuíca Comunicação e Design. Registro Fotográfico e Making Off: Jamil Kubruk. Composição em Parceria Música “Ouça”: Victor Nóvoa, Alba Brito e André Abujamra. Produção e Realização: Marmorhaus Produções

Este projeto foi contemplado pela 12a Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a cidade de São Paulo - Secretaria Municipal de Cultura.

Serviço

Filme Espetáculo - ANTÍGONA TERCEIRIZADA

Temporada até 4 de dezembro, todos os dias, às 19h.

Transmissão: YouTube do Centro Cultural São Paulo

Acesse aqui para acessar o link: linktr.ee/antigonaterceirizada

Duração: 70 minutos.

Classificação: 14 anos.

Ingressos: Gratuito.

Todas as sessões possuem tradução em libras