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  • Luiz Vieira

O Canto dos Homens da Terra, Carlos Canhameiro será lançado dia 22 de julho pela editora Mireveja

Atualizado: 20 de Jul de 2020

Com distribuição gratuita, edição tem ilustrações inéditas de Cacá Meirelles. Livro completa o díptico do autor, que começou em “O Canto das Mulheres do Asfalto. No lançamento haverá uma leitura dramática do texto em forma de podcast e uma live com o autor e convidados.




Quatro anos depois de escrever O Canto das Mulheres do Asfalto, em 2014, peça que foi encenada pelas mãos da diretora Georgette Fadel com uma bem-sucedida carreira de apresentações e boas críticas, Carlos resolve falar do masculino. O autor, que já estudava o feminismo e seus desdobramento há anos, tem a percepção da urgência em pesquisar o masculino ao se deparar com uma frase de Virginie Despentes, em Teoria King Kong: “de que autonomia os homens tem tanto medo que continuam a se calar, a não inventar nada? A não produzir nenhum discurso novo, crítico, inventivo sobre sua própria condição? Para quando é a emancipação masculina?”. A partir dai começa a escrita da dramaturgia de O canto dos Homens da Terra.

“Em 2018 eu comecei a perceber que não estava falando do masculino, estava há um bom tempo debruçado no feminino, nas feministas, a luta feminista de vários ângulos, desde o feminismo radical até o transfeminismo. Não é o meu lugar de fala, mas artisticamente sempre me interessou abordar e pesquisar este assunto. Aí eu entendi que precisava falar do masculino. A frase do livro de Virginie me pegou e pensei: é verdade, a gente não fala, ficamos pensando sobre o mundo, mas sobre a nossa construção gênero/sexo a gente não elabora. Foi assim que vislumbrei o Canto dos Homens da Terra.”, conta Carlos.

Inicialmente, quando o autor escreveu O Canto das Mulheres do Asfalto, não tinha em mente que seria a primeira parte de um díptico, Carlos a escreveu de um modo muito rápido, a partir de uma cena que construiu junto com o dramaturgo João das Neves, três anos antes. “Eu só retomei porque estava imbuído de pesquisas e sensações de que o homem era, e acho que ainda é, o grande vilão, para trabalhar uma coisa bem maniqueísta. E eu tinha o Heiner Müller em mente, porque em Hamlet Machine tem a fala de Hamlet - deveriam costurar as mulheres, assim poderíamos nos matar à vontade. E eu penso: não, isso não é uma decisão dos homens. São as mulheres que precisam chegar a essa conclusão, se elas querem ou não parir. Então eu escrevi uma peça na qual as mulheres desistiam de parir. A peça é autônoma, não tinha vontade de escrever uma continuidade, é uma dramaturgia que não deixa brecha para seguir o assunto. Mas falar da masculinidade foi uma necessidade que veio depois e me fez criar essa peça que lanço agora, sobre os dois últimos homens da terra, que são dois coveiros. Então instaurou-se o díptico, no qual as peças não se completam, mas existe uma fricção entre as duas”.

Do ensaio para a impressão do livro.

O Canto dos Homens da Terra já estava sendo ensaiada para estrear dia 5 de junho no Centro Cultural São Paulo, com o mesmo elenco que fez O Canto das Mulheres do Asfalto (Cris Rocha, Paula Carrara, Michele Navarro, Paula Serra, André Capuano e Weber Fonseca), e direção do próprio dramaturgo. Com a pandemia tudo foi adiado e o lançamento da dramaturgia se tornou uma necessidade para que a obra pudesse nascer.


“Eu gosto de ver o texto ganhar outros olhares, tenho apego nenhum, podem dirigir, usar pedaços. Em O Canto das Mulheres do Asfalto imprimimos 2 mil livros e distribuímos para as pessoas no final das apresentações. Já teve gente que pediu para montar no Rio, em Osasco, em Portugal, gente que estuda cenas na faculdade. O melhor que pode acontecer com uma dramaturgia é as pessoas quererem encená-la”, comenta o autor. Além das cotas para órgãos públicos, serão enviados livros para entidades e bibliotecas ligadas ao fomento à leitura, ao teatro e à literatura.

Da falta de pontuação.

O livro não tem ponto algum, o texto é escrito de forma corrida, e a única alteração visual que existe na narrativa é o uso de letras maiúsculas e minúsculas. Já tem um tempo que essa é a escolha de Carlos Canhameiro ao escrever suas obras. Ele vê essa forma como uma possibilidade de ampliar as possibilidades de entendimento das frases, especialmente para quem vai encená-las no teatro. Bastante influenciado por Heiner Müller, que não usa pontuação em algumas de suas obras emblemáticas, Carlos deixa as frases sem pontuação para que a dúvida de seu sentido seja um impulsionador na busca de sentido.


No começo causa uma rejeição, tanto como literatura como dramaturgia para teatro, mas depois fui percebendo que tem muita abertura na forma de construção de sentido da frase, não chega a ser uma escrita dadaísta, sem sentido, mas, se você não coloca ponto final, exclamação, dependendo da forma de construção da frase, algumas você fica na dúvida, outras você tem certeza do que se trata, mesmo sem a pontuação. Para fazer uma cena eu sempre me divirto com as interpretações que vem dos atores e atrizes. Não só quando eu estou dirigindo, em O Conto Mulheres do Asfalto, dirigido pela Georgette Fadel, eu não participei do processo e era surpreendente ouvir uma pergunta em uma frase que quando eu escrevi tinha certeza que era uma afirmação, por exemplo.”, completa o dramaturgo.

Trechos do livro:

Trecho de o Canto das Mulheres Mortas

“...MEU AMIGO essa merda de NEM TODOS nunca passou de uma porra de uma escusa individual politicamente válida para te dei xar bem na fita bonito na foto perfumado no lixo Cheio de razão cirandeira Mas o seu NEM TODO nunca moveu uma linha contra o que foi dito sobre TODOS Use o quanto você ainda puder Grite novamente que nenhum grupo é homogêneo ou que NEM TODOS são assim ou assado Livre sua alminha da injustiça Sua existencia zinha da peste mas a razão do mundo que estamos aqui gritando há horas não foi feita por nem todos porque o NEM TODOS nunca chegou ao poder...”

“...Hoje somos só a nossa voz para lhes proporcionar um relaxamento

profundo e duradouro Esperamos que vocês consigam descontrair

os músculos Os nervos A mente e a libido RESPIREM PROFUNDA-

MENTE 3 2 1 Entre 1851 e 1864 aconteceu a rebelião de taiping na

china que matou por volta de 50 milhões de pessoas 50 milhões de

pessoas Tudo começou por causa de 1 HOMEM que se intitulou ir-

mão de jesus cristo® 95% dos assassinos do mundo são HOMENS

Na década de 1890 o rei belga leopoldo segundo foi responsável

pela morte de 8 milhões de pessoas no congo 8 milhões de pes-

soas Há quem diga que a violência no HOMEM está relacionada

à testosterona Esse maravilhoso esteroide e anabolizante 1 ameri-

cano apostou que poderia engolir 1 peixe vivo de 12 centímetros e

morreu sufocado O mongol tamerlão comandou entre 1336 e 1405

uma luta que resultou em 17 milhões de mortos Mais ou menos

5% da população mundial da época 17 milhões de mortos A cada

2 segundos 1 HOMEM adulto se casa com uma mulher menor de

18 anos São 33 mil casamentos por dia no mundo Em 92 oscarsTM

as películas com HOMENS protagonistas levaram a estatueta de

melhor filme 62 vezes Os HOMENS têm os mesmos direitos que as

mulheres em apenas 6 países Nos outros 181 países eles têm MAIS

direitos...”


Trecho de o Canto da Marcha Nupcial


“...[eles continuam sendo os dois últimos homens na terra

Os coveiros do fim do mundo O imaginário é distópico

como já mencionado e depois de dezenas de anos de

produção excessiva de filmes-catástrofe não é preciso

muito para lembrar de um cenário ilustrativo Não há

muito que imaginar basta escolher na memória Eles

antes imundos de barro e restos de gente com os ros-

tos brutos de estivador coveiro mineiro etc agora ten-

tam impingir para si uma dignidade importada ...”

Trecho de o Canto do Medo


“...Não sei Elas me contam Querem saber como é para nós Elas di-

zem Você ouve um passo Você caminha sozinha por uma rua es-

cura e ouve um passo É a rua da sua casa e são ainda sete horas

da noite Há o ruído do seu sapato em atrito com a calçada mal-

-acabada e há de repente um novo barulho Ritmado É a rua da

sua casa Não há mais ninguém caminhando Só você e o barulho

a mais Ninguém no portão de algum vizinho Está escuro mas não

é tarde da noite Não há perigo ou há E por que tarde da noite

seria um perigo É sempre o mesmo caminho O novo ruído é al-

guém andando atrás de você A chave de casa já está nas mãos

há alguns minutos É uma rua longa São muitas casas e ninguém

no portão na calçada Não estou louca Não Será que me distraí É

só uma caminhada Uma volta para casa Um carro vem na direção

oposta Faróis apagados O ruído dos passos atrás está mais pró-

ximo Os passos mais rápidos Os meus e os outros Eu poderia me

jogar diante do carro mas ele está com os faróis apagados Seria

pior morrer atropelada Não sei...”

Sobre Carlos Canhameiro

Carlos Canhameiro é diretor, dramaturgo e ator. Trabalha há mais de 15 anos em São Paulo onde criou dezenas de peças com diferentes artistas e coletivos teatrais. É integrante fundador da Cia. LCT e da Cia De Feitos, além de artista parceiro da Cia. Teatro de Riscos e Cia. 4 pra Nada. Tem doutorado em artes pela Unicamp (universidade onde também fez mestrado e graduação em artes cênicas). É pai do Lucas e da Nina e acredita que a maneira como lidamos com as crianças diz muito (ou tudo) do presente onde estamos inseridos. 

Sobre a editora Mireveja

A Mireveja é uma editora jovem com uma equipe experiente, que já passou nas últimas duas décadas por jornais, revistas e grandes editoras. Foi criada em 2019 pelo jornalista João Correia Filho, autor de quatro guias literários e ganhador do Prêmio Jabuti 2012, na categoria turismo, com Lisboa em Pessoa. A Mireveja tem se dedicado a projetos diferenciados que envolvem literatura, dramaturgia e fotografia, buscando publicar livros que dialoguem com os tempos atuais.

Ficha Técnica do podcast:

Realização

Governo do Estado de São Paulo

Secretaria de Cultura, por meio do ProAC - Programa de Ação Cultural

Edital 20/2019 - Produção e publicação de obras teatrais

Este projeto foi contemplado pela 9ª Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a cidade de São Paulo - Secretaria Municipal de Cultura

Ficha Técnica

Direção e dramaturgia Carlos Canhameiro

Elenco André Capuano Weber Fonseca Cris Rocha Michele Navarro Paula Carrara

Paula Serra

Trilha sonora original Rui Barossi.