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  • Luiz Vieira

Diálogo entre mulheres é fortalecido em espetáculo sobre Maria Auxiliadora Lara Barcelos

Atriz e criadora Sara Antunes mergulha na trajetória da guerrilheira mineira.

Foto: Alessandra Nohvais.


Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, tinha 23 anos quando entrou na luta armada contra a ditadura militar. Foi presa, torturada, exilada e suicidou-se na Alemanha em 1976, aos 31 anos. Para resgatar essa história pouco conhecida, a atriz e criadora Sara Antunes mergulhou na trajetória dessa aguerrida mineira, estudante de medicina e guerrilheira, para criar o espetáculo digital Dora, que estreia dia 6 de março pela plataforma Vimeo. A temporada gratuita segue até 4 de abril, com sessões aos sábados e domingos, às 20h. O Projeto foi contemplado pela 11º edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a Cidade de São Paulo da Secretaria Municipal da Cultura.


Com texto e direção de Sara, a peça é estruturada como um caleidoscópio fragmentado mesclando trechos de cartas, imagens de arquivos e relatos autobiográficos da atriz. Angela Bicalho, mãe da atriz, faz uma participação especial traçando um paralelo da vida de Dora com a trajetória familiar de Sara. Dora, mineira como os pais de Sara, nasceu no mesmo ano que a mãe de Sara e se envolveu na resistência à ditadura tendo sido presa e exilada, assim também aconteceu com o pai da Sara, Inácio Bueno.


De posse de um material histórico inédito, confiado pelos familiares a atriz, Sara traça um percurso de registro de memória e afirmação das trajetórias femininas na política. “Neste projeto, não pretendo mitificar heróis, também não se trata de uma homenagem, mas acho importante se debruçar sobre a história do país do ponto de vista de quem participou dela. Principalmente, as mulheres”, afirma.


Utilizando poucos elementos cênicos, a direção de arte se apoia na escrita a partir das cartas enviadas da prisão e do exílio trocadas entre Dora e sua mãe, Clélia Lara Barcelos. Sara tece uma metáfora através de fios vermelhos que viram vestidos e que viram cartas utilizando plataformas de escrita como retroprojetor, paredes, projeções. Vestidos vermelhos, baldes e água são elementos que partiram de indicações nas cartas. A peça cobre o período de 1965 a 1976, a trilha sonora inclui Tropicália, Violeta Parra e Torquato Neto, canções que marcaram a época e que Dora ouvia e até recomendava.


Serão usadas também imagens de arquivo mais pessoais e documentos oficiais, como áudios de rádio, vídeos, fotos, recortes de jornais e revistas, mesclando momentos de objetividade com experimentação, apoiados por elementos audiovisuais. Tudo feito ao vivo, transmitido da casa da atriz, em São Paulo.

Foto: Alessandra Nohvais.


“Ao reconstruirmos a subjetividade de períodos traumáticos que deixaram marcas profundas na história deste país, confrontamos a política da amnésia com que se pretende, reiteradamente, apagar um passado incômodo para criar campos de ignorância histórica que, novamente, convocam abertamente forças repressoras. Dora é um projeto importante de reparação histórica, de pretensão multidisciplinar em que as lutas femininas do Brasil estão em foco”, explica Sara.


Conteúdos que geraram diferentes obras

Sara Antunes iniciou a pesquisa em 2016 quando foi convidada pelo diretor José Barahona a participar como atriz do longa documentário Alma Clandestina. Desde que tomou conhecimento da história de Dora vem gestando a ideia de um espetáculo, que teria sua estreia em 2020. Com a pandemia, o projeto ganhou novas possibilidades e nasceu o curta De Dora por Sara, filmado e dirigido em parceria com Henrique Landulfo, que estreou na mostra de Tiradentes (em janeiro de 2021). Para Sara, trata-se de um projeto transmídia. “Ele não foi pensando assim, mas se transformou pela necessidade do momento. Nasceu como cinema, será apresentado como teatro no formato on-line e futuramente, quando for possível, pretendo levar para o teatro presencial. São obras distintas, mas complementares”, explica.


Esse projeto é a continuação de uma pesquisa que a atriz vem fazendo sobre história e representação das mulheres no Brasil como nas criações: Hysteria, Hygiene, Negrinha, Guerrilheiras, ou Para a Terra Não há Desaparecidos e Leopoldina, Independência e Morte. “Em um momento como o que vivemos de negação da história, trazer o documento real, o arquivo e os fatos, é de suma importância. Temos aqui, no registro e compartilhamento em grande escala, a chance de fazermos o ato teatral se transformar em ativação de memória social, ponte entre tempos, potencializando o corpo feminino em luta. É uma oportunidade imensa de registrarmos outro olhar para mulheres da história brasileira e promover um encontro que nos foi negado e segue sendo ”, conclui.

Foto: Alessandra Nohvais.


A trajetória de Dora

Nascida em 25 de março, na cidade de Antônio Dias (MG), Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976) é uma personagem riquíssima e pouco conhecida. Estudante de medicina, Integrante da VAR (Vanguarda Armada Revolucionária) tinha 23 anos quando foi presa, libertada no grupo dos 70 em troca do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher e banida do país. Ela viveu no Chile, Bélgica, França e, em 1974, fixou-se na Alemanha, onde suicidou-se em Berlim, em 1976, aos 31 anos, jogando-se na frente de um trem.


Em seus dias na prisão, Dora foi exposta a diferentes tipos de violações, sobretudo de cunho desmoralizante frente sua condição de mulher: entre ser colocada em exposição como objeto para visitação de militares curiosos, até degradação moral frente aos companheiros. Dora denunciou as violências sofridas na ocasião de seu julgamento na Justiça Militar.


No exílio escreveu: “Sou boi marcado, fui aprendiz de feiticeira... Eu era criança e idealista. Hoje sou adulta e materialista, mas continuo sonhando. Dentro da minha represa, não tem lei neste mundo que vai impedir o boi de voar."


Ficha técnica:

Direção, texto e atuação: Sara Antunes. Concepção audiovisual: Henrique Landulfo e Sara Antunes. Direção de fotografia e assistência de direção: Henrique Landulfo. Produção: Jessica Leite. Direção de arte e figurino: Sara Antunes. Luz :Wagner Antônio. Desenho sonoro: Edson Secco. Participação: Angela Bicalho. Transmissão: Marcel Alani. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli.


Serviço:

DORA

Temporada on-line: De 6 de março a 4 de abril - Sábados e domingos, às 20h.

Duração: 40 minutos.

Classificação etária: 16 anos.

Ingressos: Grátis – Reservas pelo Sympla.com.br