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  • Luiz Vieira

Cia Repertório Rodriguiana inova e propõe montagem da obra completa do teatro de Nelson Rodrigues

Com leituras dramáticas de 5 peças de Nelson Rodrigues, mais dois contos quase inéditos publicados na coluna A vida como ela é, no Jornal Última Hora, na década de 1950, a Cia quer difundir a obra de Nelson Rodrigues como vacina contra os vírus da ignorância, da estupidez e ao autoritarismo que nos cercam; início em 12 de abril

Foto: Divulgação.


"Toda a minha obra é uma reflexão sobre o amor e a morte”,

Nelson Rodrigues.


Para a primeira edição do FESTIVAL DA TRAGÉDIA BRASILEIRA, a Cia Repertório Rodriguiana dedicado ao dramaturgo Nelson Rodrigues, escolheu três peças, com diferentes forças e gêneros, mas representativas da grandeza do teatro rodriguiano: Perdoa-me por me traíres; Álbum de família; A Serpente e também os contos Obsessão preta e A sogra peluda.


Por meio da Lei Aldir Blanc, a Cia também realiza temporada das leituras dramáticas de Toda Nudez Será Castigada e Viúva, porém honesta,(refeitas excepcionalmente para este momento) com 6 apresentações de cada peça. Para o Festival estão programadas as leituras encenadas de Álbum de família; Perdoa-me por me traíres; A serpente e dois contos quase inéditos ao leitor contemporâneo: A sogra peluda e Obsessão Preta, compõem o festival de uma semana online dedicado ao dramaturgo. Tudo vai acontecer a partir de 12 de abril.


Complementando a cena Rodriguiana, Braz traz um convidado por mês para a “Psicanálise de Botequim”, um bate-papo mensal transmitido pelo canal do YouTube da Cia. A estreia será com o escritor e biógrafo de Nelson Rodrigues, Ruy Castro.

Detalhe de desenho de Roberto Rodrigues, irmão do Nelson, liberadas gentilmente pelo INSTITUTO SÉRGIO RODRIGUES.


Marco Antonio Braz, professor, diretor e estudioso da obra de Nelson, que está à frente da Cia, assinala que somadas, essas obras formam uma radiografia profunda das sombras do ser humano e do brasileiro.


“O maior objetivo do Festival é brindar o grande público de forma que ele possa se espelhar e refletir sobre o amor e a morte, além de provar o que Sábato Magaldi já afirmava em sua célebre apresentação do teatro rodriguiano: “O teatro do reacionário Nelson Rodrigues é na verdade absolutamente revolucionário”. Encenar a obra do dramaturgo e debatê-la com as perspectivas críticas da atualidade são formas de comprovar que o teatro rodriguiano faz a denúncia dos grandes dilemas da contemporaneidade brasileira como o racismo, machismo, patriarcalismo, violência doméstica, cultura do estupro, dentre outros”, complementa Braz.

Com exibição programada para o mês de abril, a partir do dia 12, as leituras reúnem em seus elencos atores veteranos e jovens atores, que se revezam nos personagens. Dos veteranos alguns participaram de sua fundação e da primeira montagem de ‘Perdoa-me por me Traíres’ como Flávia Pucci, Patricia Gordo e Sílvio Restiffe, ao qual se juntam a convidados especiais; Lucélia Santos, Miriam Mehler e Renato Borghi, e os demais abaixo citados nas fichas técnicas das peças.


A ideia de fazer um Festival da Tragédia por mais que pareça contraditório ao unir na sua expressão a festa e a tragédia teve como referência os festivais de teatro da antiga Grécia, quando a sociedade se unia para assistir de comédias a tragédias e, com isso, mergulhar em uma consciência dos seus conflitos mais profundos.

Apesar de desagradáveis e corrosivas na observação da nossa realidade, as obras de Nelson possuem uma estética sofisticada e plena poesia dramática.

Braz recorda que Nelson foi amigo de Abdias Nascimento, para o qual escreveu Anjo Negro, e grande incentivador de seu Teatro Negro. Já no final dos anos 1950, o dramaturgo foi o primeiro grande autor brasileiro a denunciar e apontar o racismo tupiniquim e suas características, demonstrando através de sua obra aquilo que hoje conhecemos como racismo estrutural. Na sua intuição genial de artista, contribui para o debate de temas fundamentais que visam reconhecer nossas cicatrizes dolorosas e procurar uma saída rumo a uma sociedade brasileira mais humana e justa.

Em decorrência da pandemia todos tiveram de aprender a lidar com o formato online, que por um lado se mostrou bastante eficiente em adiantar um processo de leitura, estudo e pesquisa, aquilo que numa montagem é chamado de trabalho de mesa e neste caso, de torna-la pública com capacidade de atrair o espectador.

A cia

O histórico da Cia Repertório Rodriguiana vem de pelo menos três décadas. Desde quando o diretor Marco Antônio Braz montou sua primeira versão de O beijo no asfalto na faculdade e sentiu a necessidade da construção de uma companhia de pesquisa da obra de Nelson Rodrigues. Já em São Paulo, terra em que escolheu viver e trabalhar por ser o berço e a capital do teatro profissional brasileiro, encenou Perdoa-me por me traíres, Valsa n°6, Otto Lara Resende ou bonitinha, mas ordinária e a versão de 2001 de O beijo no asfalto, com a qual ganhou o prêmio APCA de melhor direção.


Desde então, fomenta incansavelmente estudo contínuo da obra do autor em companhia de um núcleo de artistas que segundo ele, possuem o DNA necessário para a realização de uma cia de repertório. O intuito da Cia é gerar trabalho para atores, técnicos e artistas envolvidos, e, sobretudo, gerar um movimento de público que possa mergulhar e conhecer com profundidade a obra do maior dramaturgo brasileiro.

Marco Antônio Braz, é cavalo de fogo do ano de 1966, do signo de Áries, ascendente Touro e a lua em Capricórnio. Dedica-se ao teatro desde os 15 anos. Formou-se bacharel em artes cênicas pela UNI-RIO em 1990. Carioca da Tijuca muda-se para São Paulo em 1991 tornando-se essencialmente paulista. Em São Paulo trabalha com Antunes Filho e funda um grupo de teatro especializado na encenação da obra teatral de Nelson Rodrigues: o Círculo dos Comediantes. Torna-se referência sobre Nelson Rodrigues não somente através de suas direções, mas através de textos teóricos, adaptações, palestras e exposições. A principal característica de sua assinatura como artista é o resgate da dramaturgia brasileira moderna através de encenações pouco ortodoxas e com muito humor. É torcedor fanático do Clube de Regatas do Flamengo.


Elenco por Peça:

ÁLBUM DE FAMÍLIA JONAS - JAIRO MATTOS

D. SENHORINHA - FLÁVIA PUCCI TIA RUTE - PATRICIA GORDO GUILHERME - LEONARDO SILVA EDMUNDO - ALEX LANUTTI GLÓRIA - VIVIANE MONTEIRO TERESA - MARIA CLARA HARO

VOZ DE MULHER - MARIA CLARO HARO AVÔ - EDUARDO SILVA

HELOÍSA - NATHALIA LORDA

PERDOA-ME POR ME TRAÍRES

NAIR - VIVIANE MONTEIRO

GLORINHA - PATRICIA GORDO

POLA NEGRI - ULISSES SAKURAI

MADAME LUBA - LIZETTE NEGREIROS

DR. JUBILEU DE ALMEIDA - EDUARDO SILVA

ENFERMEIRA - VALÉRIA ARBEX

MÉDICO - MAURO SCHAMES

TIA ODETE [A LOUCA DO SILÊNCIO] - ALMARA MENDES

CECI - CAROL CENTENO

CRISTINA - MARIA CLARA HARO

TIO RAUL - FLÁVIA PUCCI

GILBERTO - SÍLVIO RESTIFFE

JUDITE - VIVIANE MONTEIRO

MÃE - ALMARA MENDES

PRIMEIRO IRMÃO - LEONARDO SILVA

SEGUNDO IRMÃO – MAURO SCHAMES

A SERPENTE

DÉCIO - NILTON BICUDO

LÍGIA - NATHALIA LORDA

GUIDA - PATRICIA GORDO

PAULO - SÍLVIO RESTIFFE

CRIOULA DE VENTAS TRIUNFAIS – ANA NEGRAES

A SOGRA PELUDA E OBSESSÃO PRETA - O NELSON QUE NINGUÉM LEU - contos

NILTON BICUDO

EDUARDO SILVA

CLAUDIA BENEDETTI LIZETTE NEGREIROS TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA HERCULANO - JAIRO MATTOS

NAZARÉ - LIZETTE NEGREIROS

PATRICIO - SÍLVIO RESTIFFE

TIA Nº 1 - MIRIAM MEHLER

TIA Nº 2 - ANA MEDEIROS

TIA Nº 3 - ALMARA MENDES

GENI - ANTONIELA CANTO

ODÉSIO - EDUARDO SILVA

SERGINHO - LEONARDO SILVA

MÉDICO - AUGUSTO CESAR

PADRE - NILTON BICUDO

DELEGADO - RIBA CARLOVICH VIÚVA, PORÉM HONESTA

J.B. DE ALBUQUERQUE GUIMARÃES – Renato Borghi

PARDAL – Elcio Nogueira MADAME CRI-CRI – Miriam Mehler DR. LUPICÍNIO – Kiko Marques DR. SANATÓRIO – Eduardo Silva DIABO DA FONSECA – Nilton Bicudo IVONETE DE ALBUQUERQUE GUIMARÃES – Lucélia Santos DR. LAMBRETA – JAIRO MATTOS TIA ASSEMBLÉIA – Flávia Pucci TIA SOLTEIRONA – Patricia Gordo DOROTHY DALTON – Leonardo Silva PADRE – Crica Rodrigues

VIÚVA, PORÉM HONESTA (1957) - Viúva, porém honesta, peça escrita por Nelson Rodrigues em apenas uma semana, foi uma espécie de vingança contra a crítica teatral que havia destruído seu texto Perdoa-me por me traíres (na peça existia uma cena que denunciava o aborto). Apesar das circunstâncias, é uma farsa irresponsável, verdadeira metralhadora giratória de deboche e escárnio contra as instituições nacionais. A peça sobreviveu e continua mais atual do que nunca.


Nelson consegue atirar para todos os lados e mostrar através de muito humor a hipocrisia reinante nas relações de poder no Brasil, não restando pedra sobre pedra. Diz o personagem Diabo da Fonseca: “Que família? A tua? A dele? E vou provar o seguinte, querem ver? Que é falsa a família, falsa a psicanálise, falso o jornalismo, falso o patriotismo, falsos os pudores, tudo falso! [põe-se no meio do palco e berra] Olha o rapa!”


Os personagens da peça formam um painel de caricaturas da nossa realidade. Estamos diante de uma farsa completamente livre, onde a fantasia do autor brinca com a estrutura da dramaturgia e expõe o próprio fazer teatral. O protagonista desta farsa irresponsável é justamente o Diabo da Fonseca, um verdadeiro penetra da cena, que, ao contrário do que sugere seu nome, vem a ser o mais puro e romântico dos personagens. Seu único objetivo é encontrar o amor eterno na figura de uma viúva que seja honesta.


A peça é hilariante e extremamente popular. Apesar das décadas que nos separam de sua estreia, é outro texto rodriguiano que parece ter sido escrito ontem para ser encenado nos dias de hoje.

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1965) - Toda nudez será castigada já é um dos clássicos do moderno teatro brasileiro. A realização de uma Companhia de Repertório de Nelson Rodrigues não poderia se dar sem a encenação deste texto. Toda nudez será castigada foi escolhida justamente por conta da sua gritante atualidade. A narrativa moral do texto rodriguiano se mostra cada vez mais uma radiografia profunda e aguda das sombras do brasileiro. O que mais espanta é essa absurda contemporaneidade da peça, independente da linguagem e gírias de época. O texto se comunica diretamente com o público atual. Ele parece um texto escrito ontem para os dias de hoje.

Perdoa-me por me traíres (1957) — a nona peça de Nelson, uma tragédia carioca de costumes, estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 19 de junho de 1957, com direção de Léo Júsi. Única peça em que Nelson atuou, como o tio Raul. A peça foi tão aplaudida quanto vaiada. Era um canto à infidelidade, mesmo não pronunciada. "A adultera é mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela". A esse ambiente soma-se o incômodo grotesco: as primas que se interessam pelo prostíbulo, o desejo incestuoso do tio Raul, que criou Glorinha para que fosse sua. Quase todo o segundo ato se passa em flashback, quando o tio revela o interesse dos irmãos pela mesma mulher, que morre envenenada

Álbum de família (1946) — a terceira peça de Nelson ficou proibida durante dezenove anos devido ao alto número de incestos. No depoimento intitulado "Teatro desagradável", de 1949, Nelson afirma: "a partir de Álbum de família enveredei por uma caminho que pode me levar a qualquer destino, menos ao êxito". Com uma quantidade enorme de incestos, a peça visa criar o tifo e a malária na plateia. Jonas, personagem principal, açoita a esposa, Senhorinha, com o amor por meninas de onze a treze anos. O amor adolescente, traduzindo o amor do pai pela filha, também marcará o teatro de Nelson. A peça foi apresentada pela primeira vez no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, em 1967, com direção de Kleber Santos.

A serpente (1978) — a última peça de Nelson, em ato único, estreou no Teatro do bnh, no Rio de Janeiro, em 6 de março de 1980, com direção de Marcos Flaksman. Os personagens repetem, quase que integralmente, os mesmos nomes do romance de estreia de Nelson, Meu destino é pecar. Peça que pode ser tomada como exemplo da concisão que seu teatro foi adquirindo: com menos personagens do que todas as outras, exceto Valsa nº 6, a história se passa na casa onde moram dois casais, cunhados entre si. Um deles faz amor o dia todo; o outro não consegue encontrar prazer, a não ser no adultério do marido com a crioula das ventas triunfais. Vítima desse dissabor, uma irmã oferece à outra uma noite com o marido. O fim é a tragédia resultante dessa improbidade.

"A Sogra Peluda" e "Obsessão Preta" são contos de "A Vida Como Ela É" quase inéditos, só publicados e lidos na coluna de a "Última Hora" na década de 1950. Os contos retratam dois temas contemporâneos com a maestria da escrita de Nelson Rodrigues, revelando questões de gênero e racismo.


Equipe – Primeiro Festival da Tragédia Brasileira

Direção Geral e Concepção| Braz

Assistente de Direção| Ulisses Sakurai e Leonardo Silva

Produção Executiva | Bia Gomes

Coordenador de Produção| Bia Gomes e Patricia Gordo

Produção| Leonardo Silva

Concepção de Arte e Figurino| Telumi Hellen

Aula Magna| Braz

Psicanálise de Botequim |Ruy Castro

Captação de Imagem e Finalização | Vino de Lucia

Assessoria de Imprensa e Divulgação |Adriana Monteiro

Social Media| Leonardo Silva

Design gráfico| Tim Ernani

Administrador financeiro| Ulisses Sakurai

Assessoria Jurídica| Carol Centeno

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA DIAS 12,13,14 DE ABRIL EM DOIS HORÁRIOS: 15H ÀS 18H e 19H ÀS 22H

VIÚVA, PORÉM HONESTA DIAS 15,16,17 DE ABRIL EM DOIS HORÁRIOS: 15H ÀS 18H e 19H ÀS 22H

PRIMEIRO FESTIVAL DA TRAGÉDIA BRASILEIRA

· PERDOA-ME POR ME TRAÍRES

· ÁLBUM DE FAMÍLIA

· A SERPENTE

· O NELSON QUE QUASE NINGUÉM LEU: A SOGRA PELUDA e OBSESSÃO PRETA

DO DIA 18 AO DIA 24 DE ABRIL, DISPONÍVEL 24H PARA VISUALIZAÇÃO. DIA 26 DE ABRIL DAS 22H ÀS 00H - “Psicanálise de Botequim” com Ruy Castro (Convidado do mês)


DIA 27 DE ABRIL DAS 22H ÀS 00H – Aula magna com Braz ONDE? NO CANAL DO YOUTUBE OFICIAL DA CIA: https://linktr.ee/CiaRepertorioRodriguiana


*Os vídeos só estarão disponíveis no Youtube nos dias e horários acima citados. CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS